"Os homens que vão atrás de muitas mulheres podem facilmente ser divididos em duas categorias. Uns procuram em todas elas sua própria idéia de mulher, como lhes aparece em sonho, subjetiva e sempre a mesma. Outros são levados pelo desejo de tomar posse da infinita diversidade do mundo feminino objetivo.
A obsessão dos primeiros é uma obsessão lírica: procuram a si próprios nas mulheres, procuram o seu ideal e são sempre e continuamente frustrados, porque, como sabemos, é impossível encontrar o que é ideal. Como a frustração que os leva de mulher em mulher dá à inconstância deles uma espécie de desculpa melodramática, muitas mulheres sentimentais acham comovente essa poligamia convicta.
A outra obsessão é uma obsessão épica, e as mulheres não veem nisso nada de comovente: como o homem não projeta nelas um ideal subjetivo, tudo lhe interessa e nada pode decepcioná-lo. Essa incapacidade para a decepção tem qualquer coisa de escandaloso. Aos olhos do mundo, a obsessão do épico não pode ser perdoada (porque não é resgatada pela decepção).
Como o sedutor lírico persegue o mesmo tipo de mulher, nem notamos que mudou de amante; seus amigos estão sempre provocando mal-entendidos, pois não percebem a troca de conpanheiras, e chamam todas pelo mesmo nome.
Na sua caçada a novos conhecimentos, os sedutores épicos (e é essa categoria que temos que colocar Tomas) se distanciam cada vez mais da beleza feminina convencional (da qual enjoam bem depressa) e acabam tornando-se colecionadores de curiosidades. Eles sabem disso, sentem um pouco de vergonha e, para não constranger os amigos, evitam aparecer em público com as amantes"
Trecho de "A insustentável leveza do ser", de Kundera.
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
jorge ben é genial
ôôôôôôôôôôô
ôôôôôôôôôôô
ôôôôôôôôôôô
Os alquimistas estão chegando
Estão chegando os alquimistas
Os alquimistas estão chegando
Estão chegando os alquimistas
ôôôôôôôôôôô
ôôôôôôôôôôô
êêê
êêê
Eles são discretos e silenciosos
Moram bem longe dos homens
Escolhem com carinho a hora
e o tempo do seu precioso trabalho
São pacientes, assíduos e perseverantes
Executam, segundo as regras herméticas
Desde da trituração, a fixação,
a destilação e a coagulação
Trazem consigo cadinhos
Vasos de vidro, potes de louça
Todos bem iluminados
Evitam qualquer relação com pessoas
de temperamento sórdido
de temperamento sórdido
êêê
êêê
êêê
êêê
Os alquimistas estão chegando
Estão chegando os alquimistas
Os alquimistas estão chegando
Estão chegando os alquimistas
ôôôôôôôôôôô
ôôôôôôôôôôô
ôôôôôôôôôôô...
ôôôôôôôôôôô
ôôôôôôôôôôô
Os alquimistas estão chegando
Estão chegando os alquimistas
Os alquimistas estão chegando
Estão chegando os alquimistas
ôôôôôôôôôôô
ôôôôôôôôôôô
êêê
êêê
Eles são discretos e silenciosos
Moram bem longe dos homens
Escolhem com carinho a hora
e o tempo do seu precioso trabalho
São pacientes, assíduos e perseverantes
Executam, segundo as regras herméticas
Desde da trituração, a fixação,
a destilação e a coagulação
Trazem consigo cadinhos
Vasos de vidro, potes de louça
Todos bem iluminados
Evitam qualquer relação com pessoas
de temperamento sórdido
de temperamento sórdido
êêê
êêê
êêê
êêê
Os alquimistas estão chegando
Estão chegando os alquimistas
Os alquimistas estão chegando
Estão chegando os alquimistas
ôôôôôôôôôôô
ôôôôôôôôôôô
ôôôôôôôôôôô...
Minhas mãos coçaram para escrever aqui. Nem que fosse pra falar que minhas mãos coçavam. Mas até agora não consegui pensar no que. Bom, seria bom falar de como são lindas todas as pessoas que me acompanham agora. Como quero estar com todas elas, ao mesmo tempo que sei da impossibilidade da perfeição e da presença delas o tempo todo na minha vida. Talvez seja por isso tão bom escrever aqui. Sei que minhas mãos coçam porque tenho muito a compartilhar, muito a dar, embora queira sempre mais receber, ou ainda, dando com intenções de receber o dobro, ou o triplo. Não se assustem com qualquer vulgaridade, ou falta de meandros para falar. Às vezes gosto de abrir feridas, só para me mostrar que sou suscetível a qualquer coisa. Mas continuando...queria fazer aqui uma homenagem ou dizer um "eu te amo" a todas essas pessoas! Todas mesmo. Desde beberrões que sempre encontro nos bares da vida, ou àqueles que só encontro no MSN. Tem aqueles também que só aparecem no IFCS, e em outros lugares não existem. Tem aqueles que só aparecem pra dar esporro, ou falar besteira; mas valem a pena também. A todos: os amo muito!
terça-feira, 29 de setembro de 2009
A vida bate
Não se trata do poema e sim do homem
e sua vida
- a mentida, a ferida, a consentida
vida já ganha e já perdida e ganha
outra vez.
Não se trata do poema e sim da fome
de vida,
o sôfrego pulsar entre constelações
e embrulhos, entre engulhos.
Alguns viajam, vão
a Nova York, a Santiago
do Chile. Outros ficam
mesmo na Rua da Alfândega, detrás
de balcões e de guichês.
Todos te buscam, facho
de vida, escuro e claro,
que é mais que a água na grama
que o banho no mar, que o beijo
na boca, mais
que a paixão na cama.
Todos te buscam e só alguns te acham. Alguns
te acham e te perdem.
Outros te acham e não te reconhecem
e há os que se perdem por te achar,
ó desatino
ó verdade, ó fome
de vida!
O amor é difícil
mas pode luzir em qualquer ponto da cidade.
E estamos na cidade
sob as nuvens e entre as águas azuis.
A cidade. Vista do alto
ela é fabril e imaginária, se entrega inteira
como se estivesse pronta.
Vista do alto,
com seus bairros e ruas e avenidas, a cidade
é o refúgio do homem, pertence a todos e a ninguém.
Mas vista
de perto,
revela o seu túrbido presente, sua
carnadura de pânico: as
pessoas que vão e vêm
que entram e saem, que passam
sem rir, sem falar, entre apitos e gases. Ah, o escuro
sangue urbano
movido a juros.
São pessoas que passam sem falar
e estão cheias de vozes
e ruínas . És Antônio?
És Francisco? És Mariana?
Onde escondeste o verde
clarão dos dias? Onde
escondeste a vida
que em teu olhar se apaga mal se acende?
E passamos
carregados de flores sufocadas.
Mas, dentro, no coração,
eu sei,
a vida bate. Subterraneamente,
a vida bate.
Em Caracas, no Harlem, em Nova Delhi,
sob as penas da lei,
em teu pulso,
a vida bate.
E é essa clandestina esperança
misturada ao sal do mar
que me sustenta
esta tarde
Ferreira Gullar
e sua vida
- a mentida, a ferida, a consentida
vida já ganha e já perdida e ganha
outra vez.
Não se trata do poema e sim da fome
de vida,
o sôfrego pulsar entre constelações
e embrulhos, entre engulhos.
Alguns viajam, vão
a Nova York, a Santiago
do Chile. Outros ficam
mesmo na Rua da Alfândega, detrás
de balcões e de guichês.
Todos te buscam, facho
de vida, escuro e claro,
que é mais que a água na grama
que o banho no mar, que o beijo
na boca, mais
que a paixão na cama.
Todos te buscam e só alguns te acham. Alguns
te acham e te perdem.
Outros te acham e não te reconhecem
e há os que se perdem por te achar,
ó desatino
ó verdade, ó fome
de vida!
O amor é difícil
mas pode luzir em qualquer ponto da cidade.
E estamos na cidade
sob as nuvens e entre as águas azuis.
A cidade. Vista do alto
ela é fabril e imaginária, se entrega inteira
como se estivesse pronta.
Vista do alto,
com seus bairros e ruas e avenidas, a cidade
é o refúgio do homem, pertence a todos e a ninguém.
Mas vista
de perto,
revela o seu túrbido presente, sua
carnadura de pânico: as
pessoas que vão e vêm
que entram e saem, que passam
sem rir, sem falar, entre apitos e gases. Ah, o escuro
sangue urbano
movido a juros.
São pessoas que passam sem falar
e estão cheias de vozes
e ruínas . És Antônio?
És Francisco? És Mariana?
Onde escondeste o verde
clarão dos dias? Onde
escondeste a vida
que em teu olhar se apaga mal se acende?
E passamos
carregados de flores sufocadas.
Mas, dentro, no coração,
eu sei,
a vida bate. Subterraneamente,
a vida bate.
Em Caracas, no Harlem, em Nova Delhi,
sob as penas da lei,
em teu pulso,
a vida bate.
E é essa clandestina esperança
misturada ao sal do mar
que me sustenta
esta tarde
Ferreira Gullar
Banho de Lama
"As casas, as cidades,
são apenas lugares por onde
passando
passamos"
"Sobre os jardins da cidade
urino pus. Me extravio
na Rua da Estrela, escorrego
no Beco do Precipício.
Me lavo no Ribeirão.
Mijo na Fonte do Bispo.
Na Rua do Sol me cego,
na Rua da Paz me revolto
na do Comércio me nego
mas na das Hortas floreço;
na dos Prazeres soluço
na da Palma me conheço
na do Alecrim me perfumo
na da Saúde adoeço
na do Desterro me encontro
na da Alegria me perco
Na Rua do Carmo berro
na Rua Direita erro
e na da Aurora adormeço"
"a cidade está no homem
quase como a árvore voa
no pássaro que a deixa
cada coisa está em outra
de sua própria maneira
e de maneira distinta
de como está em si mesma
a cidade não está no homem
do mesmo modo que em suas
quitandas praças e ruas"
Ferreira Gullar, em o "Poema Sujo"
são apenas lugares por onde
passando
passamos"
"Sobre os jardins da cidade
urino pus. Me extravio
na Rua da Estrela, escorrego
no Beco do Precipício.
Me lavo no Ribeirão.
Mijo na Fonte do Bispo.
Na Rua do Sol me cego,
na Rua da Paz me revolto
na do Comércio me nego
mas na das Hortas floreço;
na dos Prazeres soluço
na da Palma me conheço
na do Alecrim me perfumo
na da Saúde adoeço
na do Desterro me encontro
na da Alegria me perco
Na Rua do Carmo berro
na Rua Direita erro
e na da Aurora adormeço"
"a cidade está no homem
quase como a árvore voa
no pássaro que a deixa
cada coisa está em outra
de sua própria maneira
e de maneira distinta
de como está em si mesma
a cidade não está no homem
do mesmo modo que em suas
quitandas praças e ruas"
Ferreira Gullar, em o "Poema Sujo"
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
Acontece, às vezes, de desaparecer a personalidade, e a objetividade, que é própria aos poetas panteístas, desenvolve-se de modo tão anormal que a contemplação dos objetos externos faz com que você esqueça a sua própria existência e confunda-se em seguida com eles. Seu olhar se fixa em uma árvore harmoniosa curvada ao vento. Em alguns segundos, o que seria para o cérebro de um poeta uma comparação bastante natural torna-se realidade para o seu. Primeiramente, você empresta à árvore as suas paixões, seus desejos ou sua melancolia; os gemidos e as oscilações tornam-se seus e, logo, você é a árvore. Da mesma forma, o pássaro que plana no fundo do céu representainicialmente o imortal anseio de planar acima das coisas humanas; mas eis que você é o próprio pássaro. Eu o imagino sentado e fumando. Sua atenção repousará longamente sobre as nuvens azuladas que exalam de seu cachimbo. A idéia de uma evaporação, lenta, sucessiva, eterna, tomará conta de seu espírito, e você aplicará em seguida esta idéia aos seus próprios pensamentos, à sua matéria pensante. Por um estranho equívoco, por uma espécie de transposição ou de quiproquó intelectual, você se sentirá evaporando, e atribuirá ao seu cachimbo (no qual você vai se sentir curvado e encolhido como o tabaco) a estranha faculdade de fumá-lo.
Baudelaire, em "O teatro de Serafim".
Baudelaire, em "O teatro de Serafim".
Sonhei contigo ontem. Sonhei que dormia e que acordava com seus carinhos e com seu olhar nos meus olhos se abrindo. Seu olhar...Vi todo um passado num só relance. Você me contava que tinha esperado eu acordar por muito tempo, mas que não houve sofrimento nenhum. Não precisou de paciência. Disse que sabia que quando eu acordasse valeria a pena da espera. Eu, a meia voz, contava que fora a melhor surpresa do mundo acordar assim. Contava para ti que muita coisa estava presa na minha garganta, e que fizera mal a tanta gente...Você sorriu, dizendo que isso não importava mais, que eu te contaria tudo ali, naquela hora, e tudo estaria bem depois. Tive vontade de dizer que te amava. Segurei-me. Agora me arrependo. Entendi então que o espaço compreendido entre meu rosto e o seu, delimitado pelos seus cabelos e pela luz alaranjada desperdiçada pelo sol se pondo era onde eu viveria mais intensamente, era onde eu deveria morrer. Escapou-me um sorriso, um bem aberto. Pisquei os olhos, talvez numa tentativa de testar a realidade, mas paguei a pena. Você sumiu então literalmente num piscar de olhos, e troquei meu espaço ideal por uma cama escura e solitário de um começo de noite. Acordei. Você nunca tinha existido.
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